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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

TEMPO REI

Não me iludo
Tudo permanecerá
Do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando
Todos os sentidos
Pães de Açúcar
Corcovados
Fustigados pela chuva
E pelo eterno vento
Água mole
Pedra dura
Tanto bate
Que não restará
Nem pensamento
Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Transformai
As velhas formas do viver
Ensinai-me
Oh Pai!
O que eu, ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo
Socorrei!
Pensamento!
Mesmo o fundamento
Singular do ser humano
De um momento, para o outro
Poderá não mais fundar
Nem gregos, nem baianos
Mães zelosas
Pais corujas
Vejam como as águas
De repente ficam sujas
Não se iludam
Não me iludo
Tudo agora mesmo
Pode estar por um segundo
Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Transformai
As velhas formas do viver
Ensinai-me
Oh Pai!
O que eu, ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo
Socorrei!

(Gilberto Gil)

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

MUDANÇA


Das coisas lindas de ler!

P.S.: Trecho do livro Como Um Estalo do meu querido amigo Raphael Barros Alves.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Os Gatos


“Ele fixaria em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes,quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.
Mas espera, já estou me precipitando, eu pensava naquela fábula da infância: é que Deus Nosso Senhor pediu água ao cachorro que lavou lindamente o copo e com sorrisos e mesuras foi levá-lo ao Senhor. Pedido igual foi feito ao gato e o que fez o gato? O fingido escolheu um copo todo rachado, fez pipi dentro e dando gargalhadas entregou o copo nojento na mão divina.
Acreditei na fábula, na infância a gente só acredita. Mais tarde, conhecendo melhor o gato, descobri que ele jamais teria esse comportamento, questão de feitio. De caráter. Ele ouviria a ordem e continuaria deitado na almofada, olhando. Quando se cansasse de olhar, recolheria as patas como o chinês antigo recolhia as mãos nas mangas do quimono. E mergulharia no sono sem sonhos, gato sonha menos do que cachorro que até dormindo se parece com o homem. Outro ponto discutível: dando gargalhadas? Mas gato não dá gargalhada, só cachorro. Meus cachorros riam demais abanando o rabo, que é o jeito natural que eles têm de manifestar alegria, chegavam mesmo a rolar de rir, a boca arreganhada até o último dente. O gato apenas sorri no ligeiro movimento de baixar as orelhas e apertar um pouco os olhos, como se os ferisse a luz. Esse é o sorriso do gato – ô bicho sutil! indecifrável. Inatingível.
Nem pior nem melhor do que o cachorro, mas diferente. Fingido? Não, ele nem se dá ao trabalho de fingir. Preguiçoso, isso sim. Caviloso. Essa palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. E de certas pessoas que falam pouco e olham. Olham. Cavilosidade sugere esconderijo, cave – aquele recôncavo onde o vinho envelhece.
Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo. Mas o cachorro se expõe, inocente.
Foi na minha juventude que conheci o gato bem de perto. Me preparava para os vestibulares da Academia do Largo de São Francisco, era noite. E eu lia Iracema sem vontade, lia em voz alta, aos brados, para espantar o sono. Então ouvi um ruído brusco de coisa algodoada entrando pela janela e parando atrás da minha cadeira. Senti o olhar da coisa se fixando em mim. Fui me voltando devagar, afetando aquela calma que estava longe de sentir: um gato malhado, espetado nas quatro patas, me encarava, perplexo. Eu também perplexa. Fomos nos recuperando do susto, eu menos tensa do que ele. Meu apartamento era no primeiro andar de um prédio cercado de casario e essa janela da sala dava para o telhado de uma casa velhíssima, por onde transitavam os gatos do bairro.
Por onde andam hoje os gatos que não encontro mais nenhum. Naquele tempo havia gato à beça nos muros, nos telhados. “É que a vida apertou e gato dá um bom cozido”, explicou o jornaleiro. A fome aumentou e o telhado diminuiu, onde agora os telhados nos quais eles ficavam tomando sol? Caçando passarinho. Amando. Os ratos todos em plena circulação, fortalecidos. E os gatos, onde estão os gatos? Pois aquele era um gato de telhado, as manchas amarelas e pretas num fundo branco. E os olhos. Por alguma razão obscura, escolheu minha casa: estendi a mão afeita a acariciar cabeça de cachorro. Mas cabeça de gato não é cabeça de cachorro – primeira lição que ele deu ao recuar com uma soberba que me confundiu. A conquista do gato é difícil, embrulhada, não tem isso de amor repentino: mais um movimento de aproximação e ele fugiria ventando.
Fui buscar o pires de leite, deixei-o ao alcance do visitante da noite e continuei a ler o romance da virgem dos lábios de mel, mas em voz baixa, intuí que ele preferia o silêncio. Ele ou ela? Sexo de gato não é nítido como sexo de cachorro, outra diferença importante. Leva algum tempo para a descoberta do sexo, da unha e da idade.
Gato ou gata, vai se chamar Iracema, resolvi. E deixei meu hóspede, a casa é sua.
Então ouvi o ruído delicado, ele bebia leite, mas não como os cachorros bebem, sofregamente, espirrando em redor. O gato é discreto. Há que amá-lo discretamente, pensei e fiquei sorrindo. Tenho um gato.
“Tudo passa sobre a terra!” – estava escrito no final do romance que achei triste. Olhei para a outra Iracema que dormia no meio do tapete. Também você vai passar? Tu quoque, Iracema?! Não sabia ainda que permaneceria infinita na minha finitude
.”
(Lygia Fagundes Telles – texto extraído do livro A Disciplina do Amor)

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Nosso Senhor tem cada morador, mas que horror!

          Talvez seja por isso que se estejam as coisas do jeito em que se vê. Sair do trivial, deixar de fazer o "papai mamãe" de todo dia. Há que se querer, há que se estar excitado, a cada dia, a todo instante.
          O T-zão começa no sacolejo da vida, acaba no caixão bem fundo no chão do comodismo nosso de cada dia e todo mundo tem "aquela velha opinião formada sobre tudo". É muito Paulo Coelho querendo ser Clarice!
            Pois é, por isso que temos tanta Idiotice, isso mesmo: Idiotice!! Um desejo tolo, torpe. Vivemos em uma sociedade controversa, paradoxal. Como se pode ter tanta informação e, ao mesmo tempo, tanta alienação? Suspeito que seja a própria informação. Um tiro no pé.
           Superficialidade que transborda, geração dos: "achismos", do mundo virtual, da realidade sem sal, do pagou-passou, da foda sem capa. Por que ler livros hoje em dia se tornou um hábito tão vintage?
          Nesse contexto, nós, da década de 80, somos vistos meios como ET's, estranhos, avatares. Parece que somos errados por termos nascido em uma época em que se ia à biblioteca e se pesquisava, em que havia a emoção da música da Rosana, da Jane Duboc ou mesmo - e por que não? - da canção de natal da Xuxa. Era um momento bom, que me traz, sim, nostalgia à boca, à memória.
           É por isso que adoro dezembro! Amo celebrar a hipocrisia, a família tradicional brasileira reunida na Santa Ceia. Jesus nasceu!! Ho Ho Ho!! Abraços calorosos, promessas de encontros frequentes, facada nas costas e muito amor. Pois no facebook, todo mundo é feliz, gosta de receber likes e de fazer a egípcia também.

(Ma Vie e R.F.)

"Mas minha alegria.
Minha ironia.
É bem maior do que essa porcaria."
(Caetano Veloso)

P.S.: Texto escrito a quatro mãos. Rafael Dantas, parceiro de trabalho e de divagações sobre a arte de focar no infinito e fingir demência.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Por que eu não consigo ler Clarice?



Cresci ouvindo falar em Clarice e em sua magnitude. Sobre uma mulher a frente de seu tempo quando o assunto era o traquejo com que ela tinha ao organizar as palavras em linhas que se multiplicavam até parir um livro.
Sempre tive vontade ler Clarice, mas entre ter vontade e passar ao ato...andou. Até porque vontade dá e passa. Me angustiava o fato de não conseguir lê-la, minha angústia mora exatamente aí.
Eu fico potencializando Clarice há tanto tempo, ouço todos os meus amados citarem essa diva, fazerem referências a trechos da obra x, da obra y e eu não consigo ler Clarice.
Outro dia, chegou em minhas mãos o livro A maçã no escuro da Clarice, muito recomendado que eu lesse e que depois daquela leitura eu teria outra impressão sobre ela e sua escrita singular. Conclusão: não consegui ler Clarice! Comi a maça e fiquei no escuro!
Meu aniversário foi semana passada, um encontro lindo entre amigos queridos que saíram dos seus lares para me abraçar no dia de São Valentim. Recebi alguns regalos cheios de carinho. Quando chega umas das minhas queridas e me presenteia com um livro. Opa, um livro!!! Felicidade Clandestina, da Clarice.
Passados exatos uma semana do meu ano novo, eu me pego olhando para este livro todos os dias. Fico pensando onde é o calcanhar de Aquiles. Até porquê eu sofro bullying todas as vezes que ouso dizer, numa roda de conversa, que não consigo ler Clarice. Mas o interessante é que ninguém nunca perguntou sobre o meus motivos, e eu vou sempre tentando me justificar para não ficar “mal visto” no seio dos maiores críticos literários de plantão: os amigos. Onde todo mundo tem uma opinião formada sobre tudo, risos.
Mas, voltemos ao que interessa, as minhas conclusões acerca desse fato. Ler Clarice mexe muito comigo, a escrita dela me perturba. Ela passeia por um plano que eu ainda não consigo conceber, por pensamentos, por desejos, por lugares que eu não sei se conseguiria transcrever para as folhas de papel da forma como ela fez.
Eu não consigo ler Clarice porque ela é Grande! As sensações que ela provoca em mim antecedem a sua leitura. A Felicidade Clandestina está ao alcance dos meus olhos, sei que ainda vamos namorar por mais um tempo, como um ritual de preparação para perder a virgindade e tornar aquele momento único.
Me aguarde, Clarice!!! Depois do seu debut dentro de mim, eu quero me sentir:

Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa.” (Clarice Lispector – Felicidade Clandestina – Perdoando Deus)

Texto: Ma Vie