"Provo que a mais alta expressão da dor consiste essencialmente na alegria." (Augusto dos Anjos)
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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
domingo, 5 de janeiro de 2014
Da confusão a conclusão.
- você cheira cocaína.
- não cheiro.
- então por que você vai tanto ao banheiro?
- eu tenho uma bexiga de menina.
- você cheira cocaína e é um machista babaca.
- posso ser machista, mas não cheiro
cocaína.
- eu tenho certeza que você cheira
cocaína.
- então taí uma boa hora pra você
perceber que não dá pra ter certeza de nada nesta vida.
- você tá querendo mudar de assunto;
você cheira ou não?
- não.
- mentira.
- ok. (silêncio)
- por que você não assume logo que
cheira cocaína?
- porque eu não cheiro cocaína.
- seu nariz é muito nervosinho.
- rinite.
- a desculpa clássica de quem cheira
cocaína.
- ou apenas a verdade.
- se você quiser ficar comigo vai ter
que assumir que cheira cocaína.
- eu não quero ficar com você.
- e eu não curto mentirosos.
- ok, eu sou um mentiroso.
- então você cheira cocaína?
- não… eu quero ficar com você.
- então assume.
- ok, eu cheiro cocaína.
- eu sabia. me dá um teco?
— J.Castro
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Navegante e o Que Foi
Seu Que Foi e Dona Navegante moravam na beira do mar, longe de tudo e perto de quase nada. Tinham muito pouco, mas o pouco era do tanto que lhes cabiam nos bolsos.
Seu Que Foi amava Navegante e adorava navegar nas curvas daquele corpo cansado de beira de mar. Era tanto sol, que a pele escorria pelas carnes e a rugas denunciavam que morar sob as areias da praia era como viver num deserto de sal.
Dona Navegante era mulher de força, cuidava do lar enquanto o Que Foi trazia o sustento do além mar. Ela esperava que ele voltasse para que a vida continuasse. Naquele vilarejo de casas onde o vento açoita sem piedade as paredes de barro batido, tudo era brisa, tudo era luz e calor.
Era noite quando o velho Que Foi retornava, cansado de colocar força muita e banhar a vela já desbotada da jangada, ele trazia uma cesta cheia de pequenos cadáveres prontos para a cremação e degustação. Buchos cheios, Navegante e Que Foi se sentam na varanda para contemplar aquela multidão de pontinhos luminosos na imensidão de céu, e a brisa abranda a vida na terra onde esquecer é sobrenome.
Os velhos cansados dormem juntos e conchinham, por que em terra onde tem conchas pra pisar na beira-mar, os casais dormem sempre a conchinhar.
Amanhece e o astro rei acende as luzes daquela morava encantada. O velho Que Foi se prepara para fazer seu ritual de penetrar o mar mais uma vez. Navegante fica na janela a espreitar a jangada indo, indo, indo, desaparecendo naquele fim de mundo azul.
Era noite, nada do velho retornar da escudirão. Navegante aflita, pensa que é muito mar pra uma jangada pequenina voltar.
A jangada não voltou, dessa vez o mar não deixou. O velho Que Foi se foi para além do mar. Será que virou peixe ou comida de peixe?
Navegante agora passa os dias a navegar, sem caís, sem lar, só mar...a esperar o Que Foi uma dia voltar.
Amém!
Escrito por Ma VieSeu Que Foi amava Navegante e adorava navegar nas curvas daquele corpo cansado de beira de mar. Era tanto sol, que a pele escorria pelas carnes e a rugas denunciavam que morar sob as areias da praia era como viver num deserto de sal.
Dona Navegante era mulher de força, cuidava do lar enquanto o Que Foi trazia o sustento do além mar. Ela esperava que ele voltasse para que a vida continuasse. Naquele vilarejo de casas onde o vento açoita sem piedade as paredes de barro batido, tudo era brisa, tudo era luz e calor.
Era noite quando o velho Que Foi retornava, cansado de colocar força muita e banhar a vela já desbotada da jangada, ele trazia uma cesta cheia de pequenos cadáveres prontos para a cremação e degustação. Buchos cheios, Navegante e Que Foi se sentam na varanda para contemplar aquela multidão de pontinhos luminosos na imensidão de céu, e a brisa abranda a vida na terra onde esquecer é sobrenome.
Os velhos cansados dormem juntos e conchinham, por que em terra onde tem conchas pra pisar na beira-mar, os casais dormem sempre a conchinhar.
Amanhece e o astro rei acende as luzes daquela morava encantada. O velho Que Foi se prepara para fazer seu ritual de penetrar o mar mais uma vez. Navegante fica na janela a espreitar a jangada indo, indo, indo, desaparecendo naquele fim de mundo azul.
Era noite, nada do velho retornar da escudirão. Navegante aflita, pensa que é muito mar pra uma jangada pequenina voltar.
A jangada não voltou, dessa vez o mar não deixou. O velho Que Foi se foi para além do mar. Será que virou peixe ou comida de peixe?
Navegante agora passa os dias a navegar, sem caís, sem lar, só mar...a esperar o Que Foi uma dia voltar.
Amém!
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
terça-feira, 16 de julho de 2013
O Corpo Utópico
"Talvez seria preciso dizer também que fazer o amor é sentir seu corpo se fechar sobre si, é finalmente existir fora de toda utopia, com toda a sua densidade, entre as mãos do outro. Sob os dedos do outro que te percorrem, todas as partes invisíveis do teu corpo se põem a existir, contra os lábios do outro os teus se tornam sensíveis, diante de seus olhos semi-abertos teu rosto adquire uma certeza, há um olhar finalmente para ver tuas pálpebras fechadas. Também o amor, assim como o espelho e como a morte, acalma a utopia do teu corpo, a cala, a acalma, a fecha como numa caixa, a fecha e a sela. É por isso que é um parente tão próximo da ilusão do espelho e da ameaça da morte; e se, apesar dessas duas figuras perigosas que o rodeiam, se gosta tanto de fazer o amor é porque, no amor, o corpo está aqui."
* Fragmento do texto O Corpo Utópico de Michel Foucault
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